durante o ensino remoto compulsório da época da pandemia, eu tive uma experiência bem ruim e deu tudo errado pra mim por diversos motivos. primeiro porque eu tava bem no comecinho da graduação, então ainda não tinha a maturidade necessária pra me engajar de fato nas matérias que eu precisava. meu maior arrependimento até hoje na graduação foi não ter aproveitado a matéria de sintaxe 2 com o maravilhoso prof. lunguinho, porque eu simplesmente não prestava atenção nas aulas e não consegui absorver nada.
depois, porque era um período extremamente atípico e desconfortável em que ninguém tava muito bem da cabeça pra continuar estudando. talvez não pelo covid em si, mas eu tive uma recaída no meu estado mental, cheguei a deixar de comer e emagrecer muito na época, ao ponto dos meus pais notarem e conversarem comigo, oferecendo ajuda profissional e tudo. imagina se uma pessoa nesse estado tinha mental pra estudar? claro que não.
por fim, tinha o delicioso detalhe que o meu vizinho do lado do meu quarto decidiu fazer uma obra interminável durante toda a época da pandemia até a gente se mudar daquele inferno, e todo dia era barulho de obra no meu ouvido. tardes de dor de cabeça, dificuldade de concentração e estresse causadas por terceiros e eu nem podia fazer nada. estudar só de noite, mas isso mal era uma opção, já que as aulas eram síncronas na parte da manhã e da tarde, e eu não costumo ter muito ânimo pra estudos de madrugada (depende da época, do meu estado mental e do que deve ser estudado).
por conta de tudo isso, o ensino online ficou com uma imagem ruim pra mim. decretei que não funcionava pra mim de jeito nenhum, que eu prefiro mil vezes o presencial, e por anos foi esse discurso traumatizado de quem viveu três quase infinitos anos de ensino remoto forçado, apressado, sem planos, imposto por causa da situação.
depois de uma aula online de 5h30min no sábado e outra de 1h40min hoje, sou obrigada a reconsiderar essa minha aversão ao ensino online. foram duas aulas bastante produtivas, que passaram rápido (sim, até a de cinco horas), aulas que não se prenderam na exposição, como costumava acontecer na pandemia, mas que trouxeram momentos de discussão, interação e trabalho em pequenos grupos que foram todos extremamente produtivos e que contribuíram pra aula e pro meu aprendizado.
além disso, claro, pude assistir as aulas em um momento de vida completamente diferente pra mim, em que eu não só tenho a paz do silêncio ao meu redor, como tenho meu mental reconstruído (em partes, enfim) e principalmente que eu já tenho mais maturidade e interesse nos meus estudos. tudo isso permitiu que eu passasse a aula inteira focado no que estava acontecendo e tomando anotações, em vez de me permitir dispersar e fazer outras coisas pela comodidade de estar em casa, de câmera fechada, sem ninguém pra me julgar, com computador e celular à minha disposição o tempo todo.
a grande vantagem do ensino remoto pra mim, acho que todo mundo concorda: não ter que sair de casa. claro, sair às vezes é bom, ver gente, ter essa interação que a gente só tem quando vê as mesmas pessoas cara a cara toda semana durante a aula, que forma laços mesmo que temporários e tudo. eu gosto de verdade de estar na universidade, e ainda acho sim que o ambiente sala de aula me mantém mais focada no assunto, mas reconheço hoje em dia que não é só isso, até porque tem aulas em que eu disperso mesmo presencialmente, porque depende muito mais de mim, da minha motivação e dedicação, do meu interesse, e das minhas escolhas, do que do ambiente em si.
porém, é evidente o quanto essa saída e permanência fora de casa me esgota muito toda vez, mesmo que seja só uma aula de menos de duas horas na parte da tarde. todo o processo de me arrumar, sair, passar 40 minutos dirigindo (considerando ida e volta), andar no sol, ficar sentado numa sala (muitas vezes no calor), interagir com pessoas em maior ou menor nível, drena muito minha energia e eu chego em casa muitas vezes com dor de cabeça e completamente acabada, sem energia pra fazer mais nada praticamente.
poder simplesmente abrir meu computador dez minutos antes, vestida confortavelmente porque não vou ligar a câmera, não me preocupar o tempo todo com o que as pessoas estão vendo em mim (expressão facial/corporal, contato visual, etc), reduzir a interação a comentários no chat ou meras reações ou absolutamente nada, e até mesmo poder botar uma musiquinha calma de fundo são pontos mega positivos que me salvam muita energia numa aula online quando comparado a uma aula presencial.
por outro lado, existem ainda suas desvantagens, é claro. mas acho que meu ponto com isso tudo é reconhecer que, como tudo que a gente discute na licenciatura (métodos, decisões, atividades, todo tipo de escolha que a gente toma ao montar uma aula), o ensino remoto depende muito de muita coisa pra funcionar bem. depende das necessidades do aluno, das competências do professor, da metodologia escolhida, do conteúdo a ser abordado, tudo tudo tudo.
por exemplo, eu continuo não sendo muito fã de aulas online de idiomas, porque eu sinto muita falta do aspecto físico na hora de interagir em atividades de speaking, da liberdade maior que o aluno sente de abrir a boca e falar, repetir, perguntar, reagir em um ambiente presencial que se perde nessa coisa de deixar o microfone desligado no online, e da possibilidade de atividades mais físicas mesmo. como fico eu, que sou mega fã da atividade de "find someone who..." em que os alunos têm de levantar e sair andando pela sala perguntando os enunciados de um em um, sendo que não dá pra fazer em um teams da vida?
vale lembrar da distinção ead e remoto, em que o ead seria aqueles cursos em que o material fica à disposição do aluno pra estudar no seu próprio ritmo. isso com certeza não funciona pra mim, basta pensar no curso ead de italiano que eu tinha um ano pra concluir e eu fiz uns 20% durante esse tempo todo porque não tinha disciplina e organização pra encaixar ele na minha rotina. por outro lado, o remoto é esse formato considerando aulas síncronas, que é o que de fato aconteceu na faculdade durante a pandemia e o que de fato eu desejo abordar aqui.
enfim, isso tudo só porque ando repensando o quão vantajoso e produtivo seria eu investir em cursos remotos em um futuro distante, talvez nessa ideia de uma pós-grad mesmo, como foi o caso do curso de sábado, em vez de enfrentar o presencial por mais algum tempo. fica aí a reflexão pro futuro.