acabei de ter uma conversa mais profunda com um dos meus melhores amigos e eu cheguei na seguinte fala: "em algum momento quem sabe eu volte a ser eu". imediatamente, eu percebi o quanto eu costumava dizer muito isso em relação aos meus personagens no rp, mas essa é a primeira vez que eu digo isso em relação a mim mesmo, e eu achei interessante explorar essa novidade e tentar entender o que realmente significa essa sensação de estar fora de mim, e tentar me explicar se eu realmente não sou eu nesse momento.
eu joguei rp no twitter/telegram por muito tempo com meus amigos, tive vários personagens diferentes, uns mais ativos, duradouros e marcantes do que outros, mas existia um padrão. eu sobrevivia à base de picos, fosse pela animação de um personagem novo, fosse pela animação de um momento interessante da vida do personagem, que me mantivesse empolgado em atuar, postar, interagir com pessoas, já conhecidas ou novas.
o rp por si só é um ambiente de muita interação social, que só se mantém se você tem contatos frequentes e pessoas para dar continuidade ou profundidade à trama do personagem, por mais simples que ela seja. e, claro, era um hobby que me divertia muito, então durante esses momentos de pico, enquanto eu conversava com várias pessoas frequentemente, participava de grupos ou projetos e tinha motivos para continuar ali, eu sempre estava muito empolgado e me divertindo.
então, o pico passava, eu começava a me afastar das pessoas ou dos meus projetos fictícios, acabava encontrando conforto em outras coisas mais silenciosas, como jogar jogos no computador sozinho, e era difícil voltar. difícil, porque não tinha o mesmo ritmo ou empolgação de antes. difícil, porque quando você para de participar de algo, é muito difícil acompanhar tudo o que você perdeu ou voltar de onde parou. difícil, porque eu começava a me sentir mal por me afastar de todo mundo e por não estar presente, e aí entrava num ciclo de me sentir envergonhado demais para simplesmente aparecer depois de tanto tempo. e é aí que entrava a famosa frase: "vai passar, e logo eu volto a ser eu de novo".
nesse sentido, "ser eu" queria dizer ser animada, ser ativa, ser participativa, ser sociável, principalmente. ser aquele raio de sol que a ryu, minha personagem, costumava ser quando eu tinha energia para interpretá-la bem e interagir com outras pessoas. mas, ao mesmo tempo, isso implica que ser recluso, estar sozinho, tirar um tempo para mim, me divertir comigo mesmo jogando jogos, não é ser eu. será?
na época, dizer isso em relação ao rp não era problema nenhum. cada personagem é exatamente isso, um personagem, o que significa que eles podem ser o que eu quero que eles sejam, mesmo que eles tenham sempre algum pedaço de mim (porque não conseguimos de jeito nenhum nos afastar de nós mesmos ou do que nós conhecemos, mesmo quando interpretando ou escrevendo ficção). eu poderia dizer que a ryu era essa imagem brilhante, animada, cheia de energia e extremamente sociável, porque era essa a personalidade que eu queria que ela tivesse, enquanto um momento mais soturno, solitário, recluso era apenas isso, um momento, não era parte dela.
já quando eu trago essa mesma frase para a minha realidade, enquanto pessoa real por trás dessa fábrica de sonhos, personagens e narrativas, a coisa fica um pouco diferente, e é isso que eu gostaria de entender pela escrita nesse momento.
a frase surgiu em um contexto bem parecido com o que acontecia no rp. eu estou tendo um ano muito intenso em vários sentidos desde o segundo mês do ano: acontecimentos, amizades, estudos, trabalhos, sentimentos, viagens, shows, conversas, tudo tem sido muito intenso e tem me afetado muito de muitas formas diferentes. dentre tudo isso, vamos destacar o lado social, assim como no rp.
eu estive sendo um ser muito social desde o final do ano passado; amizades na universidade que se concretizaram para fora dela, um grupo de amigos diariamente ativo que está sempre fazendo chamadas e jogando jogos online juntos, e mais um terceiro círculo social em que eu fui incluso e que ocasionalmente sai junto, já que grande parte mora aqui, diferente do meu grupo de amigos principal num primeiro momento. esse ano, um dos amigos que está no centro desse terceiro círculo se mudou para a minha cidade, o que significa que agora temos muito mais encontros do que costumavam existir antes, não só dentro desse círculo social, mas também porque ele gosta de sair bastante comigo e meu namorado.
além disso, foi também no segundo mês do ano que meu grupo principal de amigos se reuniu na mesma cidade pela primeira vez, aqui, para ficar quase duas semanas juntos todo santo dia. duas pessoas estavam dormindo na minha casa, então eu literalmente não tinha uma noite de descanso em que eu pudesse sentar na minha escrivaninha sozinho, ler meus livros ou escrever meu diário sozinho, ouvir as músicas que eu quisesse sozinho, e dormir na minha própria cama sozinho. claro que no momento isso mal era um problema — poxa, eu amo estar com meus amigos e foi uma experiência maravilhosa ter todos eles no mesmo lugar ao mesmo tempo, sair para tantos lugares diferentes com eles, criar tantos momentos inesquecíveis, e incluso passar as noites com dois dos meus melhores amigos como se quase todo dia fosse uma festa do pijama. era quase como viver aquela vida agitada e sociável do rp, todo dia em contato com alguém, sem pausa. tudo isso enquanto comecei a ter problemas de verdade no meu relacionamento de três anos (seguidos, quase nove intermitentes) pela primeira vez, sem contar alguns conflitos que surgiram no próprio grupo de amigos com o tempo, o que no rp também era bem legal, afinal conflitos dão profundidade e realidade à história da personagem. na vida real ainda tem um pouco disso, conflitos nos tornam mais profundos, fortes, preparados para a vida, mas não quer dizer que não dói.
depois que a viagem acabou, as chamadas diárias e nosso convívio virtual num geral voltou, é claro, mesmo com os conflitos que ainda perduravam no ar (principalmente o do meu relacionamento), o que significa que eu ainda estava sendo sociável constantemente, e lidando com conflitos constantemente, o que me drena consideravelmente. tudo isso sem contar mais uma viagem no mês seguinte em que eu também passei alguns dias com um dos meus melhores amigos, participante do grupo, e depois a volta às aulas que também significa contato constante com pessoas, amigos, colegas de turma e.. alunos em dois estágios obrigatórios diferentes.
no rp, nosso convívio social é moldado por nós mesmos, isso é, nós escolhemos mais ou menos com quem vamos socializar: amigos, família, novos conhecidos, colegas em alguma espécie de projeto ou emprego. mas grande parte da vida dos personagens, ao menos dos meus, corre independentemente de conversas reais entre eu e outros jogadores, ocorre somente na narrativa que eu crio, muitas vezes só na minha cabeça, sem nem escrever em algum lugar de fato, o que significa que não depende de uma socialização de verdade, da minha pessoa off com outras. tudo isso para dizer que, mesmo assim, eu ficava cansado e precisava de um tempo para mim. e se todas as situações da vida de uma pessoa dependessem de contato social com outras pessoas reais?
é o que acontece no mundo real, e é o que tem acontecido comigo durante o ano inteiro. amigos online, amigos pessoalmente, família, namorado, colegas de faculdade, alunos, professores, vendedores, atendentes de restaurante, motoboys me trazendo entregas, tudo, TUDO na vida real depende de interação social. e interação social me CANSA. isso não é novidade pra ninguém que me conhece bem, mas a forma como eu tenho lidado com tudo isso talvez seja.
então chegamos no ponto em que a frase aparece pela primeira vez na minha vida real. eu desapareci, me afastei, reduzi minha participação em uma parte do meu convívio social, uma das únicas de que eu poderia me afastar sem grandes consequências. eu me afastei do meu principal grupo de amigos, ou ao menos do convívio virtual constante com eles. me afastei das chamadas, até mesmo de trocar mensagens às vezes. em parte, não mudava muita coisa, porque agora metade do grupo mora por aqui e constantemente me tira de casa para passar o tempo junto, e isso eu dificilmente consigo negar. por outro lado, me afastei dos que não moram aqui, mas que são igualmente algumas das pessoas mais importantes da minha vida. e uma delas sentiu.
e então, conversando sobre isso hoje, a frase saiu. "em algum momento, quem sabe eu volte a ser eu", significando que em algum momento eu voltaria a ser aquela pessoa participativa, presente, que conversa, faz chamada, joga, passa todo o tempo livre que tem junto com os amigos todos os dias, porque é assim que eu sou. certo?
talvez não. talvez eu tenha me acostumado com essa vida antes de fevereiro, porque era confortável, natural, não me cansava. porque eu tinha menos coisas acontecendo, ou talvez coisas menos intensas, e tinha energia para gerenciar tudo ao mesmo tempo. mas eu sempre fui a pessoa que precisa de um tempo para si, a pessoa que preza por uma noite, ou às vezes uma tarde, na calmaria do meu quarto, ouvindo nada além de uma boa playlist enquanto me dedico a um hobby ou a um projeto que dependa só de mim, sem interação social.
falar em "ser eu" é considerar vários eus diferentes. assim como eu costumava precisar de mais de um personagem pra contemplar as diferentes facetas que eu tenho, na vida real eu preciso de diferentes momentos, diferentes compreensões de mim. já fazem meses que eu não consigo entrar em uma chamada com meus amigos, e por mais que eu me sinta mal, culpado e um péssimo amigo por isso, isso também faz parte de quem eu sou e das minhas necessidades.
isso não quer dizer que eu nunca mais vá voltar a aparecer e participar, pelo contrário, eu espero que volte, ou talvez eu tenha que me esforçar para voltar a acontecer. mas nesse momento (já faz alguns meses, talvez até por tempo demais), eu preciso do meu tempo e isso também significa ser eu. talvez um eu que eu goste menos, um eu que eu ainda tenho dificuldade em compreender, acolher e amar, mas ainda um eu necessário pra que eu continua vivo, funcionando, e pra que o meu outro eu mais empolgado tenha ainda mais valor, para mim e quem sabe para os outros também.