às vezes eu sou tomado por uma sensação de vazio, como se tivesse um universo inteiro colapsando dentro do meu peito. um pânico terrivel da minha solidão, me esmagando como todo o peso do mundo. sinto como se eu estivesse atrás de um vidro, vendo o mundo ao meu redor; as pessoas e os lugares à minha frente, mas fora de alcance. como se não fossem reais. no final do dia as coisas nao fazem tanta diferença assim pra mim.
meu coração parece estar inflando dentro de uma caixa minúscula, se esmagando contra as paredes a cada batida. o cheiro da tinta da caneta me faz pensar em algo que eu nao sei definir; uma sensação de impotência, como se mesmo sendo eu quem está escrevendo eu não pudesse mudar o fim da história.
sinto a falta de alguém pra compartilhar essas coisas. uma pessoa que se interessasse em saber todos os paralelos que encontro na minha cabeça entre o que existe e o que nao existe. tenho passado muito tempo sozinho e ausente de mim. nao tenho espaço pra elaborar meus pensamentos. sempre sinto que nao tenho o que escrever, até que pego a caneta e todo o ar sei dos meus pulmões. vivo tão anestesiado que sequer percebo a diferença entre o barulho e o silêncio.
se me perguntassem agora, por exemplo, eu não saberia responder se faz ou não barulho. não têm vozes ditando as palavras em minha cabeça, mas ainda assim é como se o chão tremesse. é barulhento no meu coração, como se ele estivesse cheio demais de cores, sons, cheiros, sensações e pensamentos misturados demais pra distinguir uma coisa da outra. talvez meu coração e minha cabeça dividam o mesmo lugar dentro do meu corpo. isso explicaria.
me sinto tão sozinho o tempo todo, e estou tao acostumado com isso que já nem sei como agir quando tenho companhia. não sei quem sou, e sou assombrado por essa pergunta o tempo todo. ser automático é mais fácil, acredito. sem ter de medir minhas reações, só usando uma fórmula pronta. ler uma história é mais fácil que escrevê-la, então leio tudo que escrevem por mim e sigo nesse personagem, pois é mais rápido que me reescrever por completo. se eu tivesse de fazer isso não saberia por onde começar.
qual a primeira pergunta a se fazer quando se quer conhecer alguém a fundo? acho que, não importa o que me perguntasse, nunca me conheceria o suficiente pra ser eu mesmo de fato.