Peguei esse conto/novela pra ler do nada depois de vê-lo citado em um curso de escrita criativa(li pela publicação da The New Yorker) que eu tava assistindo e eu tô completamente de queixo caído. Não conhecia Claire Keegan, apesar de provavelmente já ter ouvido por alto o título do romance dela - "Pequenas Coisas como Estas" - e agora penso que preciso absorver mais obras dela, pois estou genuinamente impressionado com o que li aqui em Tão Tarde do Dia. É forte, é denso, é profundamente crítico e dramático. Cada palavra carrega um peso avassalador que atravessa as barreiras - se é que há barreiras - da conexão humana. O desenvolvimento dos personagens é cuidadoso, delicado e muito poderoso; conforme a narrativa avança, camadas sutis começam a aparecer mesmo sem que eles sejam entregues de bandeja. Aqui, o não dito também assume uma força catártica, o trabalho de subtexto é inegável e a autora deixa a subjetividade ativa para que o leitor siga sua própria intuição e que teça seus próprios julgamentos sobre as situações e os personagens. No fim e durante a leitura, eu senti um desconforto muito grande. Um desconforto pois estava diante de uma obra muito humana. É um retrato do cotidiano moderno e do que se esconde por trás dos rótulos sociais. Claire discute complexidades relacionais, principalmente dentro de um relacionamento conjugal, partindo de um princípio em que as pessoas se relacionam com o outro sem se conhecerem antes e sem ao menos entenderem o conceito do matrimônio, gerando uma crise fatal na relação; assim como discute sobre como o âmbito em que a gente vive e a educação que a gente recebe influencia na forma como crescemos, de como vemos o mundo e de como as pessoas nos veem - a misoginia é um tema destaque aqui nesse conto. Claire reúne esses elementos deixando que as entrelinhas falem por si, criando uma análise psicológica sobre o amor moderno - ou melhor, sobre o falso amor.
Eu realmente adorei isso aqui, pensarei muito ainda sobre essa história.