Sempre me impressiono com o quão monumental esse album é. É até hoje o disco com o marketing mais caro já realizado por uma gravadora, com direito a estátuas em diferentes cidades, Michael de uniforme militar dentre outras coisas. Não é outra coisa, senão uma definição do quão gigante o cara havia se tornado; cuja fama havia crescido exponencialmente numa escala acima de qualquer outro artista pop da época e de forma muito acelerada - e isso assusta. Assusta porque o sucesso exige um sacrifício quase desumano e desse sucesso vem também a exploração, a ganância e muita negatividade. HIStory é um projeto que nasce da dor, impactado diretamente pelas acusações de abuso sexual e por todo o sensacionalismo enganoso praticado contra o músico - um tormento que se seguiu até sua morte. Um retrato de um artista em declínio tentando se reconstruir; de uma voz silenciada tentando ser ouvida. Nesse ponto, o disco deixa de ser só um álbum e se torna quase uma autobiografia; a construção de um legado marcado pelo medo, pela insegurança e pela paranoia. E ao pensar o disco dessa forma, duas leituras vêm a minha mente: HIStory parece tanto um diário pessoal, quanto um escrito sobre a própria história da humanidade, na voz de um dos artistas mais importantes do século XX. Essa ambição conceitual, por mais inconstante que ela possa ser perto de outros álbuns dele, ainda o torna um de seus trabalhos mais interessantes.
Esse é o primeiro lançamento de Jackson em CD, assim como é o seu primeiro lançamento duplo. A obra divide-se em dois segmentos significativos cujo títulos são, respectivamente, HIStory Begins e HIStory Continues. O primeiro trata-se de uma coletânea com os maiores sucessos de Michael na Epic Records, isso é, desde Off The Wall(1979) até Dangerous(1991). Comercialmente, é mais uma maneira de lucrar ainda mais com o nome do cantor, agora transicionando o som do vinil pra um som mais moderno. Artisticamente, pra mim, é uma retrospectiva; uma revisita nostálgica àquilo que um dia o tornou um fenômeno influente e que justifica parte do subtítulo da obra(Past, Present and Future). Em HIStory Continues, entramos em um presente febril com um Michael cada vez mais agressivo expondo sua guerra contra empresários, políticos, produtores e meio midiáticos de tal forma que, por vezes, atravessa o âmbito pessoal para o global. Scream(dueto com a irmã Janet) abre o disco como um desabafo desesperador; um grito entalado lutando para sair e dizer tudo aquilo que o coração sente. Em They Don't Care About Us, a luta é governamental; ele preza pela dignidade social que os grandes prometeram e não cumpriram. Em Stranger in Moscow, o frio russo atravessa a alma criando um espaço melancólico; é sobre se sentir vazio, sozinho e deslocado no ambiente em que vive. Em Tabloid Junkie, Michael faz alerta sobre como a mídia é capaz de manipular e fomentar o aumento de desinformações.
É interessante notar também como Michael intercala sua própria história com a história do mundo, desenvolvido desde sempre a partir do sangue derramado, do ódio racial crescente e da exploração de recursos. Earth Song, sua obra-prima, é o hino da natureza e da humanidade. A faixa-título - em tom de celebração e com recortes de reportagens variados - sintetiza tudo: a busca por uma narrativa escrita com menos injustiça e mais compaixão, resgatando tudo de bom que tem se perdido com o avanço da humanidade(off topic: eu adoro o discurso do homem na lua sendo tocado no final da canção). Mas em meio à tanta rebeldia e tristeza, também há espaço para o amor. You Are Not Alone parece entoada por um anjo, mas é um pedido humano - de alguém que, assim como nós, não quer estar sozinho. E o álbum ainda encerra com um ótimo cover de Smile, composição de Charlie Chaplin, como se ainda houvesse motivo pra sorrir apesar de tudo, pois ainda há coisas que fazem a vida valer à pena.
HIStory: Past, Present and Future - Book I é o álbum mais pessoal de MJ e ouví-lo dói, como cutucar uma ferida aberta que nunca cicatrizou de verdade. Um disco que comporta muita angústia e tragédia, mas que sobra humanidade. E nesse momento, de todos os álbuns de MJ, HIStory talvez seja o que mais merece uma revisita.