Existem obras que nascem destinadas a se tornarem clássicas e o tempo atua na imortalização, provando a teoria; e existem aquelas que nascem julgadas e, com o tempo, são reavaliadas e aclamadas com o status de injustiçada/subestimada, atribuindo valor a uma obra que em sua época ela não teria recebido. Invincible é um exemplo curioso desse segundo caso. Lançado em outubro de 2001, o décimo e último álbum de Michael Jackson em vida foi recebido com críticas mistas da crítica e do público, que se dividiam entre elogiar a sonoridade moderna do disco e torcer o nariz para sua duração exaustivamente longa - um resultado de uma produção bem controversa. No entanto, a obra sobreviveu - e cresceu durante - à passagem do tempo, chegando aos ouvidos de uma geração Z sintonizada com o streaming de uma forma ainda mais relevante do que os trabalhos póstumos realizados pelo espólio - Michael(2010) e Xscape(2014) -, um fenômeno certamente motivado pela entrada positiva de Michael no pop típico da época e pela tentativa de preservar o legado e memória do astro, valorizando o que seria sua despedida do mundo da música.
O álbum funciona no âmbito da memória afetiva por ser seu último projeto, mas ainda que seja repleto de canções que destacam sua grande importância para a música pop, o álbum no geral não é isento de falhas e está longe de se equiparar aos seus melhores trabalhos.
É difícil não falar de Michael Jackson e suas obras sem considerar o contexto complexo. Michael foi alvo de tabloides desde meados da década de 80 e tudo piorou em 1993 quando as primeiras acusações de abuso sexual infantil surgiram, acarretando em perdas de patrocínio, em sua saúde fragilizada e em um intenso vício em remédios, o que fez o projeto enfrentar uma longa série de adiamentos. A popularidade de Michael estava em baixa e sua saúde já não era mais a mesma, algo que não parece afetar sua performance vocal que se destaca de forma mais controlada e ainda versátil, como a suavidade emotiva em "Butterflies" e a potência rouca - e quase irreconhecível - em "2000 Watts"; mas afeta a composição.
Das 16 faixas, apenas duas("Speechless" e "The Lost Children") são de autoria do Michael, sendo todas as outras escritas ao lado de uma longa lista de compositores, o que pode refletir uma certa falta de confiança no material novo ou uma dificuldade do astro em emplacar algo realmente inédito.
Isso contribui para outro problema central no álbum que é a repetição temática. Michael até entra no novo milênio acompanhando - e até influenciando - o R&B contemporâneo, mas não traz nada de novo em seu repertório, tendo que, em meio a muitas canções de amor e corações partidos, cantar sobre perseguição midiática("Privacy" até tem uma contribuição interessante do Slash, mas no geral é um "Tabloid Junkie" sem impacto) e causas humanitárias("Cry" e "The Lost Children") que já foram cruciais em seus álbuns anteriores, especialmente em Dangerous(1991) e HIStory: Past, Present and Future - Book I(1995).
Devido a essas escolhas, a setlist se mostra bem irregular. Acredito que Michael incorpora muito bem a chegada do Pop moderno e os avanços do hip pop nas três primeiras faixas, especialmente na faixa de abertura "Unbreakable", que Jackson lutou para ser o single principal do disco(um erro isso não ter rolado). Depois da intensidade, o disco se enfraquece em baladas que parecem ter saído das sessões de Bad(1987). Ainda que dê para destacar bons hits em potencial, como "Break of Dawn"(que eu particularmente adoro), "Heaven Can Wait"(a queridinha dos jovens modernos) e "You Rock My World"(a escolha da Sony para single), outras são insossas demais e só servem para inchar ainda mais o álbum, como "Speechless"(cujo início me lembra muito "You Are Not Alone", até de repente tocar mesmo um verso dessa música aqui) e "You Are My Life". O lado B abre forte com "2000 Watts", em que Michael parece dar as boas vindas animadas à década e ao eletropop, só para depois repetir as mesmas temáticas já melhor trabalhadas por ele anteriormente. O disco volta a ter força apenas em seu final, com o embalo latino da magnífica "Whatever Happens"(feat com o guitarrista mexicano Carlos Santana e um dos pontos altos do disco), seguida pela tensão de "Threatened".
Invincible ajudou Michael Jackson a quebrar mais um recorde histórico, sendo até hoje o álbum mais caro já produzido, com um custo estimado de US30 milhões. O álbum não foi um fracasso de vendas, mas não teve o mesmo desempenho que o padrão MJ exigia. É verdade que o disco foi afetado injustamente por problemas externos a ele, como a recusa da Sony em promover adequadamente o lançamento, incluindo a ausência de turnê e que levou Michael Jackson e o executivo Tommy Mottola à uma briga judicial. Porém, também é verdade que o álbum carece da inventividade artística pelo qual Michael foi tão revolucionário. Ainda que tenha méritos, tudo parece soterrado por uma série de inconsistências que tornam o álbum arrastado, repetitivo e, de certa forma, incompleto. Talvez tenha sido falta de ideias, talvez excesso delas; só faltou alguém que organizasse isso de uma forma mais coesa. Ainda assim, mesmo com as falhas, a obra parece ser humana o suficiente para conversar com as gerações que cresceram em um mundo que já estava perdendo Michael Jackson. Talvez um sinal de que, mesmo em baixa, o Rei do Pop nunca saiu de seu posto.
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