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2026.07.18 (Sat)
Tanto Kant quanto Berkeley explicam a objetividade da realidade. O primeiro pela representação universal das categorias e sensibilidade. O segundo pela percepção finita sustentada pela percepção infinita de Deus. A articulação entre os dois revela uma lógica complementar. Se juntarmos, temos uma visão dupla: interna: percebemos o mundo pelas categorias representacionais; externa: o mundo e nós somos percebidos por Deus. A objetividade da experiência se sustentaria tanto por uma estrutura interna quanto por um fundamento externo. O que é delicado nessa articulação é que Kant rejeita qualquer metafísica que derive de um fundamento externo à experiência. Para ele, o númeno não pode ser fundamento positivo de tal objetividade. O contrário de Berkeley que funda tudo num fundamento externo: Deus. É revelando Berkeley que se mostra possível a articulação. A relação sujeito-objeto em Berkeley se diz relacional; o que se tem como interpretação usual que é por meio do percebido que no ato de perceber agiria constituição. Ora, a relação com o percebido não muda sua ordem objetiva. A reação mais comum é a de que como não haveria matéria independente tudo tornar-se-ia ambos: o que percebe é o que se percebe. Isso é equivocado: Berkeley faz distinção: o mundo percebido é de ordem objetiva isso não implica uma supressão de sua experiência à subjetividade individual, muito menos o contrário. Mas isto acontece apenas no sentido da percepção do sujeito que é limitada por suas capacidades e pelo mundo. A pergunta célebre de que quando ninguém está há ver uma árvore ela existiria ou não leva a tal prejuízo. A objetividade da experiência do mundo existe por ela ser percebida por Deus. É por Deus perceber o mundo que há percepção: não é nós que fazemos o objeto ser percebido existir. O sujeito faz parte do mundo e portanto ele somente percebe por ser percebido por Deus, este é seu ser: relação com Deus. Isto não significa que não haja outras maneiras como a percepção de Deus se dá. É nisto que penso a distinção fenômeno e número de Kant faz-se tão evidente. Berkeley, ao meu ver, quando faz a distinção entre percepção finita e percepção infinita abre a brecha para a articulação com Kant, se percepção for representação, como levo a crer. Kant concordaria comigo que há representação limitada e há representação ilimitada. Entretanto não se pode levar a representação ilimitada à ordem fora da experiência. Isso não impede que a representação ilimitada não possa ser o que se compreende em Berkeley como a percepção de Deus e isso, portanto, não o contradiz. O que tenho em mente: Deus agiria como “percebedor” da representação limitada do sujeito pelo númeno. Isto coloca em questão a rejeição Kantiana da metafísica que se funda externamente à experiência porque como por reflexo, em Kant, representação que representa o mundo, em Berkeley, percepção que percebe o mundo. Com Kant se tem o arcabouço para a necessidade da arquitetura interna: categorias e sensibilidade que possibilitam a representação do mundo e de si. Berkeley mostra a possibilidade de um fundamento externo que o abranja. É por caminhos distintos que os dois filósofos respondem a tal questão sobre a objetividade da experiência do mundo e é por ela que penso que se faz possível articulação teórica; “percebemos o mundo por categorias e somos representações não somente por elas, mas por Deus que nos percebe.”